As duas faces de Satanás
Plínio Salgado
O comunismo não é uma causa: é um
sintoma. O mal não é o comunismo em si, porém as causas que geram o comunismo.
O comunismo, por consequência, não se acaba
com violências, com opressões e fuzilamentos; acaba-se com a extinção das
fontes de onde provém.
É preciso encararmos o comunismo sob
os dois aspectos pelos quais ele se apresenta: o intelectual e o moral.
Sob o ponto de vista intelectual, o
comunismo só pode ser combatido, eficientemente, pela crítica, pelas ideias, no
livro, na tribuna, na imprensa. Sob o ponto de vista moral, o comunismo só pode
ser combatido pelas medidas que melhorem as condições de existência do povo e
pelos exemplos de virtude.
Tanto o estado de espírito do
intelectual como o estado de espírito do inculto, porém, sentimental, só podem
ser substituídos por uma nova concepção da vida.
Será, porém, inútil, tanto a ação do
pensamento como a ação do sentimento, se ela não for prestigiada pelo exemplo.
Estancar as fontes geradoras do
comunismo --- eis o nosso trabalho.
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Onde estão as fontes do comunismo?
No materialismo burguês.
Com que autoridade um materialista
pode declarar-se inimigo do comunismo?
Sua atitude reacionária só consegue
irritar ainda mais os humildes, os infelizes, os pobres. Seu ódio anima o ódio
dos contaminados pelo bolchevismo. Seus impulsos violentos não fazem mais do
que acender mais ao vivo as cóleras da multidão.
É muito comum hoje em dia escutar-se
um burguês dizer: “Qual nada! O que o Governo devia fazer era fuzilar logo
esses comunistas!”.
A gente olha para o burguês. Está bem
vestido, com o charuto na boca, acaba de descer o elevador do Jockey Club, onde
levou duas horas almoçando num restaurante elegante. É casado. Daqui a pouco,
vai ter um encontro com uma mulher que não é a sua, no “hall” do Palace. Esta
manhã esteve na praia, seminu - dando pasto aos olhos nas arredondadas formas
das frineias familiares que, por sua vez, não perdem a Missa, mas acham natural
o nudismo -, fazendo conquistas baratas. O burguês tem uma renda farta. Vive à
tripa forra. Sabe de numerosos casos de adultérios e conquistas, e distrai-se
também no esporte dos galanteios reles. E tem muita raiva aos comunistas. “Oh!”
– exclama horrorizado – “O Governo devia fuzilar essa caterva!”.
Nosso homem vota um desprezo profundo
pelos humildes. Essa gente, para ele, não passa de animais que cheiram a cebola
e a suor. Grita com os inferiores, maltrata os que estão por baixo de sua
imensa categoria. Detesta o convívio dos homenzinhos, da gentinha, dos
estudantes pobres, dos caixeiros, dos suados operários e camponeses, do soldado
heroico que, afinal, mantém a ordem em que o burguês floresce, daqueles que
guardam a sua casa, como cães de fila. Caçoa do brasileiro do sertão, que
trabalha para sustentar o luxo das capitais. E, quando esse nédio burguês ouve
falar em comunismo, logo diz: “Basta a polícia! É meter-lhes as patas de
cavalo, é varrê-los a metralhadora”.
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Não: O comunismo não se combate assim.
O burguês está enganado. Já se enganou desse modo na Espanha; está se enganado
na França, como está se enganando no Brasil.
O comunismo é apenas um sintoma do
materialismo grosseiro de que o burguês é a fonte originária.
O operário não quer mais acreditar em
Deus? Mas quem foi que ensinou o operário a negar a Deus? Foi o burguês. O
burguês que acha muito boa a religião para os velhos, os proletários, as
crianças e as mulheres.
O nédio burguês usufrutuário da ordem
é ateu, não respeita a sacralidade da família, nem liga importância à ideia de
Pátria. Leva uma vida de macaco, só pensando em prazeres, com o nariz a cheirar
rabos de saia. As suas preocupações dominantes são o alfaiate, a garçonnière, o clube, o pano verde, a
esperteza nos negócios, as paixões criminosas.
Convém, para ele, que o operário seja
religioso porque assim não incomoda com rebeliões e desesperos. Convém que a
esposa também o seja, porque assim se conforma com as suas ridículas atitudes
de galo velho ou leão da Avenida. Convém que as crianças também o sejam, para
não darem trabalho com desobediências.
É assim o burguês. Para ele a Pátria é
uma coisa boa, porque a Pátria para ele não são os milhões de Brasileiros que
sofrem, de compatriotas solidários na comunidade das tradições e aspirações
nacionais, porém, os soldados que lhe vigiam a casa, os policiais, os agentes
de segurança, investigadores e metralhadoras, que fazem o sono tranquilo na
doçura dos lençóis de cambraia. Isso é que é a Pátria, a Nação, para ele. Ele não
serve a Pátria, é a Pátria quem o serve. A Nação é um guarda-noturno que lhe
lambe as gorjetas pela via dos impostos para as festas abandeiradas, com hinos
e salvas de peça. Não a defende, pois. Deixa essa incumbência ao Exército, à
Polícia, ao Governo. “Para isso pago os impostos”, diz – e não dá um passo.
No íntimo, o burguês materialista
está convencido de que o Governo e as Forças Armadas existem para que ele, em
plena segurança, possa conquistar e desonrar a filha do operário; possa mudar de mulher como quem
troca de camisa; possa refestelar-se no seu pijama de seda; possa atropelar com
seu automóvel o mísero velhinho ou a inocente criança que tiveram a petulância
de atravessar em frente da sua máquina possante e reluzente. Mas, se abre a
boca para expender ideias, esse miserável tipo do século XX propõe sempre o
combate ao comunismo. Lá no fundo de seu coração empedernido, ele pensa que o
Governo, o Chefe de Polícia, os militares, os camisas verdes, devem ser seus
capangas, seus criados dóceis.
Estão muito enganados, os burgueses.
O que nós, Integralistas, combatemos, em primeiro lugar, combatemos, é o
materialismo, o sensualismo, a grosseria dos sentimentos, o domínio dos
instintos. Sem combater isso, como conseguiremos combater o comunismo?
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Pois se o operário olha para o
burguês e vê que ele, em todas as suas atitudes, proclama que a vida do homem
acaba neste mundo; e se o burguês – para o operário – é o homem que sabe, que
leu, que estudou; e se é com ele que o operário aprende, - é lógico que o
operário fique sendo materialista, e deseje também ser um bruto, um gozador, e
como não tem recursos adere a uma doutrina que lhe diz: “O céu e o inferno são
aqui mesmo, tratemos pois de gozar a vida!”
A filha do operário, que se prostitui
levada no carro elegante do burguesote, foi seduzida primeiro pelo luxo da
burguesinha e pela opulência da burguesona. Os homens brutais, que premeditam o
assalto às famílias para saciar a sua lascívia, não fazem mais do que imitar de
modo violento o rico homem que assaltou habilidosamente a casa do pobre,
roubando-lhe a mulher ou desencaminhando-lhe a filha.
É que o proletário é uma obra do
burguês. O pobre faz-se à imagem e semelhança do rico. Depois, a criatura
revolta-se contra o seu próprio criador; nada mais lógico, porque o burguês
também se revoltou contra Deus.
O burguês é violento? O operário
também o será. O burguês é lascivo? O operário copiar-lhe-á a vida. O burguês é
comodista, indiferente à Pátria? O operário também afirmará que a Pátria é o
estômago.
O burguês é cosmopolita? O operário é
internacionalista. No fundo são a mesma coisa.
Se o comunista prega o amor livre, o
burguês, de há muito vive em poligamia. Se o comunismo prega a destruição das
religiões, o burguês, de há muito, está caçoando de todas as religiões.
O comunismo quer matar, trucidar?
Mas, o burguês também exige fuzilamentos e ceva-se no ódio político.
As massas desordenadas não têm pena
das famílias dos burgueses? Os burgueses
terão pena das famílias infelizes, paupérrimas, deste país?
É preciso dizer, tanto ao rico como
ao pobre, esta palavra dura, que irrita e queima, que desvenda, porém, os
segredos das desgraças atuais em todo Orbe terrestre:
- Homens, abrandai vosso coração de
pedra, aplacai os vossos instintos, erguei vosso pensamento para Deus, porque
estais loucos!
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Satanás afivela sempre duas máscaras:
a máscara da dor e a máscara do prazer.
Quando o homem sofre, Satanás é a
revolta, o desespero; quando o homem goza, Satanás é a voluptuosidade, a
luxúria.
Satanás veste os andrajos da miséria
para sacudir os punhos fechados na saudação bolchevista.
Porém Satanás veste seda e enfeita-se
de jóias para sorrir com indiferença e desprezo sobre o sofrimento dos
humildes.
Satanás é o comunista que assassina e
massacra. E Satanás é também o homem rico e feliz que nada faz para evitar a
morte de multidões de pobres, mal alimentados e desamparados de qualquer
conforto físico ou espiritual.
Satanás é a revolta das hetairas nos
prostíbulos. E é também a alegria triunfante dos flirts adulterinos nas rodas da elegância.
Satanás é a indiferença, o comodismo,
o ceticismo, a negação, a ruína de uma Pátria.
E se lestes ou ouvistes estas minhas
palavras, o vosso crime é dobrado, pois não podereis alegar ao supremo Julgador
das vossas ações que não apareceu alguém que vos lançasse, por vos amar, e
muito, verdades ao vosso rosto.
Satanás apoderou-se de vós,
burgueses, como se apoderou de muitos proletários. Entrou nas oficinas, mas
fábricas, nos campos, nas casas humildes dos bairros tristes, levantando o
pendão do ódio; mas antes disso já havia entrado e brilhado nos vossos salões,
semeando frases elegantes e costumes fáceis.
Urge que vos transformeis, homens do
meu tempo, ricos e pobres.
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Na Família, pela Pátria, para Deus.
Mas, que estas palavras não sejam
apenas palavras. Que estas palavras sejam sacrifício e realidade profunda dos
corações e das almas. Eis a grande, a única batalha contra o comunismo.
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(Este Texto foi publicado originalmente como um Artigo em "A Offensiva", em 1935, tendo sido reproduzido em diversos outros Periódicos Integralistas e não-Integralistas, bem como em edições avulsas. Posteriormente foi incorporado como primeiro Capítulo de "Páginas de Combate" (1937) e incluído nas antologias "Madrugada do Espírito" e "O Pensamento Revolucionário de Plínio Salgado". Existem diversas versões parciais de "As duas faces de Satanás" na Internet.)
FONTE: http://integralismo.blogspot.com.br/2013/04/as-duas-faces-de-satanas.html
FONTE: http://integralismo.blogspot.com.br/2013/04/as-duas-faces-de-satanas.html
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